segunda-feira, 21 de junho de 2010

Para Todo mal: Há cura




Essencialmente crítico, debochado, descontraído ou descompromissado, o senso de humor é um sinal de maturidade psicológica e intelectual de um indivíduo.


Pode parecer confuso julgar como “maduras” algumas modalidades de humor – obviamente piadas que escarneçam as diversidades e liberdades de escolha alheias não estão incluídas – mas, ao contrário dos pressupostos, pode-se dizer que por mais boçal que pareçam, são excelentes colaboradoras para a sanidade mental: sem as piadas obscenas, as risadas em contextos inadequados, o riso incontrolado em meio a situações desesperadoras, nós, seres humanos, sucumbiríamos a infelicidade, a angústia, a hostilidade e a selvageiria do nosso atual caos social.


Rir é uma excelente forma de tornar a realidade mais aceitável; não é necessariamente uma maneira de evadir-se de tudo, mas sim um socorro gratuito que facilita aos homens diminuir o fardo de existir em contextos muitas vezes violentos, sofridos e duros.


Talvez a cura da humanidade esteja bem mais acessível do que todos pensávamos; caso não nos cure, o remédio do riso – se rir é o melhor remédio – pelo menos nós fará, pelo instante que dure, um pouco menos miseráveis.



quarta-feira, 2 de junho de 2010

Confissão de um Amor Tímido

Fecharia os olhos pelo tempo que fosse

Apertaria pálpebra contra cílios

Fortemente

Pra sentir o toque suave do teu corpo envolvendo o meu

Queria poder, em fantasia,

Rever toda a sua maneira

De me encantar...

Todo afeto e caricia

O riso farto e meigo dos seus olhos pregados aos meus

Sentir na boca o gosto gozoso do beijo

A textura ímpar da saliva

E o arrepio ardente que me percorre o corpo todo

Quente...

Achar entre todas as formas descritas

A mais segura de me perder entre todas essas palavras ditas

Que insistentemente abraçam o papel

Pra dizer que eu amaria acordar meus olhos e morar em você.

domingo, 25 de abril de 2010

Lamúria




Doces foram os sonhos interrompidos.

Duras as lágrimas iniciadas

O peito arfante de saudades

Na boca o gosto amargo da desesperança;



Os olhos já imperfeitos de tão inchados

Os lábios rubros mesmo sem tinta.

O que me fazia dar graças à divina bondade todos os dias

Traz-me um soluço infindável e um aperto nas entranhas.



Oh senhor Deus, o que aqui se faz aqui se paga?


Diga-me oh Senhor Deus: porque se paga o mal que não se fez?


Diga-me oh Senhor Deus: o que fazes com aqueles que desonram sentimentos tão dignos de honra?


Diga-me oh Senhor Deus: porque não arrancas meu peito fora se dele não tiras essa erva daninha que me consome me desprezando.


Diga-me oh Senhor Deus: porque me destes veneno em frasco de amor...



Leva-me oh Deus Pai para teus braços, e em silencio profundo e consolo imenso, me negas as respostas dessas indagações vis.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Anáfora



Pingos d’água açoitam minha janela

Pingos d’água caem me açoitando

Colocando-me em névoas nostálgicas...

Bem se sabe que a chuva não é de ter coração.


Toca mansa uma música em minha janela

Toca mansa e me martiriza

Acentua-se a quimera da lembrança...

Bem se sabe que a música não é de ter dó de ninguém.



A chuva cai lá fora

Reviro-me atrás da janela

E dentro de mim uma janela se transtorna

Tudo lembrando a ela...



Oh vida passada!

Oh saudades que tenho de ti

Oh dor que trago em mim

Oh pena que a vida me destina!



Toca mansa a melodia dos pingos em minha janela

A noite se arrasta entre transtorno e sossego

Chove no céu uma lágrima amarga

E ela desliza melodicamente dentro de mim.

domingo, 11 de abril de 2010

Passos Errantes


O que dizer em defesa
das minhas incertezas e imprecisões
de moça-menina?


Caminho vacilante e frágil
Sigo tentando assimilar essa vida sofrêga e bailarina


Meu descontrole e minhas divagações inseguras
Meus desamores e desencantos no desabrochar do pejo
Um vacilo inócuo me transporta a'um ensejo: nele perco um pedaço
Sopro pela boca um soluço
Imovél fico e dentro da dor.

Como a tola dançarina que torce o tornozelo


paro...


choro
e espelho à platéia meu vicioso desfecho seco.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Adoração


Ela o venera intensa e profundamente.


Tão ansiosamente que doa o próprio orgasmo


E tão desesperada e viciosa que arregala os olhos


E arranca às suas órbitas pra vê-lo.


Imoderadamente o socorre,


Convulsivamente o devora.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Os poetas



Dotou-lhes Deus de consciência corpo alma e poesia.


Costurou-lhes em uma das mãos a pena.


O tinteiro pôs em suas almas


Nele o sentimento do mundo.



Deu-lhes diversas formas figurativas.


Entregou-lhes o papel e a forma


Pompa e Eloqüência


Ritmo e musicalidade louca.



Depois de tudo feito Ele parou


Olhou de perto


Descansou e viu que era feito bom e deu-lhes


Asas próprias. Alçaram vôos.



Pena e tinteiro em mãos:


Pintaram os Céus de vermelho e


Morreram de amores imperfeitos.